A falta de projeto nacional

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Não pensam o Brasil, buscam apenas o poder pelo poder. A orfandade da sociedade se expressa nas carências com que se defronta no dia a dia. Ao invés do futuro, que precisa ser planejado com competência, busca-se repetir o passado. O retrovisor é a grande bússola do planejamento do Brasil. Planejar o futuro com os seus desafios gigantescos que precisam ser enfrentados, não integra a agenda dos partidos. Buscam apenas o poder para repetir a tragédia recorrente de governos sem rumo e comprometidos na mediocridade refugadora de desafios. Para usar linguagem equina, é um tropel de animais em desabalada carreira, para o nada. A velha política brasileira atingiu o limite máximo da irresponsabilidade, onde o desprezo pela opinião pública e a falta de compromisso com idéias inovadoras é marca registrada. Levando a administração pública, em todos os níveis, aproximar-se de um estágio pré-falimentar.

A deterioração das grandes cidades pela favelizacão, a violência ensandecida pela multiplicação da criminalidade, integram a tragédia social urbana. Em certas áreas depende-se do visto de bandidos para sair de casa com a certeza de voltar vivo. Pesquisa mostra que, os brasileiros entre 56 países avaliados, é quem tem mais preocupação com drogas e crimes. As “monstrópoles” brasileiras concentram hoje nas áreas urbanas 80% da população. Em 1970, representavam 56% e a projeção para 2050, realizada pelas Nações Unidas, deverá atingir 90%. É um desafio que precisa ser enfrentado no presente e planejando o futuro com o padrão disciplinador de crescimento para essas aglomerações urbanas. O que acontece nas cidades, com a deterioração dos espaços públicos, não é fato isolado. Estende-se a toda estrutura do Estado nacional.

Falta ao Brasil um projeto de país que defina o rumo de inserção no mundo globalizado e enfrente, com coragem, no plano interno, rigoroso planejamento de metas na remodelação da estrutura e infraestrutura do Estado. O planejamento não é figura de retórica como parece entender os marqueteiros nas campanhas eleitorais. Nos últimos anos nenhuma obra de grande importância na infraestrutura foi concluída. Os portos e rodovias estão, na sua maioria, em situação calamitosa. Os hospitais e escolas públicas vivem um penoso ciclo de desintegração à vista de todos que queiram enxergar. Na agricultura obtemos a cada ano safras recordes, mas os caminhoneiros que transportam essa riqueza para os portos chegam a esperar dias para descarregar. Agravado com a falta de estrutura de armazenamento. Das obras festejadas pelo “marketing”, a transposição do Rio São Francisco é um engodo, o mesmo valendo para a ferrovia Norte-Sul, se aproximando dos 30 anos.

No desenvolvimento profissional e pessoal da população, o Fórum Econômico Mundial acaba de medir o “capital humano” de 122 países. Onde saúde e bem estar; educação em que se avalia a qualidade do ensino em todos os níveis, e formação de mercado de trabalho que expressa o preparo da população em idade de trabalhar, a situação do Brasil não é confortável, aparecendo em 52٥ lugar. No item saúde e bem estar, estamos em 49º lugar; no referente a emprego, 45º lugar; já no item educação, despencamos para 88º lugar. E o pior: quando se mede a qualidade de todo o sistema educacional, atingimos o 105º lugar. As observações do professor Klaus Schwab, presidente executivo do Fórum, são merecedoras de reflexão: “A chave para o futuro de qualquer país está no talento, na capacidade e nas habilidades da sua população. Pode ser mais determinante para o sucesso econômico de longo prazo do que virtualmente qualquer outro recurso.”

Os fatos comprovam que, em termos de gestão pública, estamos convivendo com um ciclo de “incompetência vitoriosa” pela manipulação da verdade, propaganda massacrante e mistificadora e “marqueteiros” sendo os grandes agentes do “planejamento nacional”. Pelo lado da velha política, ao invés da ruptura com a incompetência, a meta é abalar as estruturas do Estado com a multiplicação de legendas partidárias, onde o compromisso é um só: consolidar o patrimonialismo e alavancar o clientelismo. Mandatos mercantilizados foram responsáveis, na primeira semana de outubro, pela mudança de 57 deputados federais para novos partidos recém criados. A população consciente, ante a forma de como se faz política o Brasil, relembra Cícero, no Senado Romano: “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi Deputado Federal (1978-1991) É autor de vários livros sobre economia brasileira e suplente do Senador Alvaro Dias.